A dois meses o céu não irradia de estrelas como hoje, um dia que deveria ser feliz, feliz por estar presa a terra, por estar presa ao solo, no qual ocorre graças a gravidade. As estrelas estão simplesmente radiantes, e eu passaria a noite olhando-as, e admirando uma das maiores belezas que nosso mundo pode nos proporcionar – Será que alguém no mundo também pensa em como somos sortudos e abençoados por termos tudo que temos? - . Uma gota pingando do céu, duas gotas se pingam, sinto como se elas estivessem em meu rosto, e estão , ao mesmo tempo que do lado de fora, duas lagrimas se escorrem em minha face agora renovada após um longo tratamento dermatologico. Fecho os olhos e mais uma pende por entre minhas bochechas, e eu desejo com tanta grandeza que algo espetacular aconteça em minha vida, do fundo do meu coração eu desejo, desejo viver. Então concentro meus pensamentos em tudo que mais gosto no mundo. O abraço da minha mãe, como ela me mantem em total conforto quando me abraça. Minha melhor amiga, como ela me deixa tranquila quando eu não deveria ou quando como ela me faz voltar a colocar os pés no mundo, como se em algum momento eu pudesse quebrar a barreira da gravidade e flutuar e ela me puxasse novamente. Como eu gosto, da gota da chuva pingando, escorrendo, e descendo por entre minha face, meu cabelo, meu corpo, como me sinto revitalizada quando isso acontece. Como se lavasse todo mal, toda tristeza plantada dentro de mim. Me concentro em outra das coisas que mais gosto no mundo. O toque das mãos, da pele, quando se encontra com a grama, como ela pode ser tão fria, tão sozinha, solitária e de algum modo acolhedora, sentir aquela parte mais áspera que tem em volta de cada folha. Meus dedos adentrando as folhas da grama, uma por uma, lentamente, até que chega a terra e eu a sinto húmida.
Abro os olhos e aqui estou eu de volta, olhando pela janela,
voltando para a gravidade.
“Você é perfeita”, “Quer ficar comigo?”, “Serei sincero com
você!”, “Quero que você vá também”, “Estamos no mesmo barco hoje, vamos no
cinema?” – Essas são as palavras recebidas por alguém que cedeu pra vontade da
carne, pra vontade do mundo.
E as lagrimas voltam a escorrer. Fico parada, imóvel, por
segundos, minutos, horas, não sei dizer ao certo. Dois passos para tras,
observo meus moveis, cada canto do meu local mais intimo, mais querido. Esta
totalmente bagunçado, assim como minha vida.
Respiro fundo, me deito, puxo a
coberta que ganhei no meu décimo quinto aniversario – 15 nunca foi meu numero preferido, alias, não tenho números preferidos
-. Fecho os olhos, e me concentro novamente -Respira, Expira, Respira, expira, respira, expira-. A falta de ar
que a anos não me atinge, volta a me atacar, como um vulcão em erupção, tento
relaxar, e em dois minutos consigo manter minha respiração em um ritmo normal e
sem falhas. Meses de técnicas e treinos. Enfim me perco em pensamentos,
pensamentos bons, penso em como são os tuneis de um formigueiro – Deve ter vários em baixo da grama do quintal
dos fundos- , em como as borboletas são lindas e vivem tão pouco – Que injustiça-, e as abelhas –Que tenho tanto medo!-, elas só vivem até se
sentirem ameaçadas e depositar seu ferrão. Não me lembro da ultima vez que
vi o por do sol, nem o nascer- Preciso
fazer isso o mais rápido possível-.
Preciso sentir o toque da
natureza sobre minha pele, sentir minha alma se renovando, um tempo de relaxo. –Por que me martilizar ?- e então
mentalmente peço Por favor Senhor, me perdoe, perdoe-me por
ceder a vontade da carne, a vontade do mundo, e não meu coração, que me dizia:
Não se envolva. Não era o que eu queria, por favor perdoe-me. Será que você
consegue me ouvir ? só quero que seja feita a tua vontade, e a minha vontade eu
renucio, renuncio a vontade do meu corpo,
vontade da carne para viver somente para ti, viver um mundo que só tu
conheces, que só na tua presença posso sentir, quero voltar a sentir tua
presença, como sentia antes, e que hoje, graças as vontades da carne que cedi
não o sinto mais. Eu renuncio-me a ti -.
Caindo no sono, sonho com a
chuva. – Alias, sempre tive convicção de
que depois da chuva uma nova fase se inicia, uma fase limpa-.
Pisco meus olhos algumas vezes,
tentando deixa-lo focado, algumas tentativas vãs e decido pegar meus óculos no
criado mudo, sinto-me bem como se tivesse dormido vinte horas. O sol aparece pela fresta da janela e sei que é hora de levantar, levantar para um novo dia,
um novo momento, um momento de viver e ser feliz.- E eu farei isso todos os dias, por todas as pessoas que me querem
mal, por todas as pessoas que me querem bem, por todos os planos frustrados, e
por todas as vitórias alcançadas, por Deus ter dado sua viva por mim, e por mim
mesma, para todo o sempre, até meu ultimo suspiro, a cada manhã que se formar
no horizonte, saberei que é uma nova chance para recomeçar-.
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